Julho tem uma crueldade específica: ele promete.

Em maio a gente olha para julho e vê um lugar. Nesse lugar existe uma família descansada, que acorda sem despertador, que faz panqueca, que vai ao museu que nunca deu tempo de ir. Existe uma mãe paciente. Existem crianças que brincam entre si por horas seguidas sem que ninguém seja mordido.

Julho acaba em poucos dias. E o que teve foi tela, foi conta de mercado subindo, foi um ou outro passeio no shopping, foi mais grito do que na rotina normal — porque casa cheia com adulto trabalhando é uma equação que não fecha.

E aí vem a conta.

A conta é sempre feita de noite, isso eu já reparei. De dia a gente não tem tempo de se cobrar. Mas quando a casa silencia, uma parte da cabeça abre a planilha e começa: quantos dias eu estive realmente presente. Quantas vezes eu disse "agora não". Quantas vezes eu mandei assistir TV porque eu precisava de vinte minutos, e os vinte minutos viraram duas horas, e eu deixei porque estava bom para todo mundo.

Convenhamos: essa planilha nunca fecha no azul.

Eu queria fazer uma pergunta antes de continuar, porque ela muda o resto. O que exatamente você queria que tivesse acontecido nessas férias?

Se a resposta for específica — queria ter ido àquele lugar, queria ter ensinado ela a andar de bicicleta — ainda dá pra fazer, e não precisa ser em férias. Mas eu desconfio que na maioria das vezes a resposta não é específica. A resposta é uma sensação: eu queria ter sido outra pessoa nessas férias.

Mais leve. Mais disponível. Menos cansada.

E aqui está o problema, porque essa é uma expectativa que nenhuma agenda resolve.

A gente foi convencida de que férias é quando a família se reencontra. É uma ideia bonita e ela ignora um detalhe operacional: férias é quando a estrutura some. Some a escola, some o horário, some a rotina, some o intervalo em que o adulto ficava sozinho para respirar. E some justamente o que sustentava a paciência de quem cuida.

Depois a gente se cobra por não ter sido melhor exatamente na condição em que era mais difícil ser melhor.

Tem outra coisa, que é a mais difícil de escrever.

Uma parte dessa culpa não é sobre férias. É sobre o tempo. As férias funcionam como uma régua anual: elas marcam que ele cresceu, que ela já não pede colo do mesmo jeito, que o ano passou e você estava ocupada demais para ver passar. A culpa de julho é, em boa parte, luto disfarçado.

E luto não se resolve fazendo mais. Se resolve olhando.

Então deixa eu propor uma coisa em vez do plano de recuperação que você provavelmente já está montando na cabeça.

Não tente compensar. Compensação é a forma mais rápida de transformar afeto em dívida, e criança sente quando o passeio de domingo está pagando alguma coisa.

Faça o contrário: escolha uma coisa pequena que sobreviva à rotina. Uma. Que caiba numa terça-feira comum, com sono, com lição de casa, com jantar atrasado. Porque o que constrói vínculo não é o julho perfeito — é a terça-feira que se repete.

E sobre a planilha de madrugada, uma última coisa.

Seu filho não está fazendo essa conta. Ele não sabe quantos dias você esteve presente. Ele sabe que teve um dia em que vocês ficaram até tarde vendo um filme que ele já tinha visto três vezes, e você viu de novo, e reclamou, e ficou.

 

É isso que fica. Não é justo, e é assim.

Por: Joanna Mello.